DIVERSIDADE, EQUIDADE E INCLUSÃO - INTERCÂMBIO EM ROTARY E HISTÓRIAS ÚNICAS NO ZIMBÁBUE - POR LÍVIA ROCHA

por Rotary Club de Petrolina Governador Geraldo Coelho

INTERCAMBIO ROTARY NO ZIMBÁBUE - LIVIA ROCHA
INTERCAMBIO ROTARY NO ZIMBÁBUE - LIVIA ROCHA

A ideia de criar uma vida nova em outro lugar e aprender idiomas distintos sempre foi um sonho.

Diante disso, realizar intercâmbio com o Rotary passou a ser um objetivo real em 2021. A influência rotária da família e a experiência como voluntária de Interact foram muito importantes para chegar a essa decisão, visto que, além de realizá-lo, eu representaria meu país e emergiria em uma cultura diferente da minha.

Ao completar toda a aplicação, consegui uma boa colocação, o que me proporcionou ter escolha para qualquer opção de países disponíveis. Ao longo do ano, surgiram vagas para vários países europeus, Estados Unidos, México, Peru, entre outros. Todas as opções seriam muito boas, proporcionariam experiências edificantes, porém uma vaga em particular se destacou para mim: o Zimbabué. Não era exatamente o que tinha em mente, até porque eu nem sabia que essa era uma opção, mas eu estava disposta a me aventurar. Com isso, escolhi vir para a África! Um lugar para o qual apenas o Rotary poderia me levar.

A oportunidade de viver no Zimbabué por um ano me deixou extremamente feliz, contudo, a minha empolgação não durou muito, porque comecei a experienciar a falta de informação na mídia e a ignorância alheia acerca do país. Escutei muitos: "África? O que você vai comer lá?", "Você é maluca?", "Como seus pais deixam a filha ir a um lugar desses?", ou, por fim, "Você é muito corajosa de ir para lá, eu nunca conseguiria". Na verdade, acho que essa última afirmação estava certa. Não é possível ser intercambista com essa mentalidade, independente do destino.

Meu processo de preparação para vir foi muito às cegas, já que eu fui a primeira pessoa do distrito 4500 a escolher essa vaga e eu não conseguia achar nada na internet sobre o país. Entrei em contato com os demais intercambistas de outros distritos para saber mais sobre a cultura e me acalmar. Eu diria que foi um processo bem solitário, ninguém estava vivendo a mesma coisa. Algo que me manteve motivada foi saber que todas as experiencias que valem a pena na vida precisam de coragem. Além disso, seria uma oportunidade literalmente única.

Realmente, ao chegar em terras africanas, tive diversos choques culturais. Em meu primeiro dia, precisei reaprender a comer, a usar o banheiro e ainda a me comunicar em uma sala onde as pessoas conversavam em três idiomas diferentes simultaneamente. Spoiler: nenhum deles sendo o meu. Foi incrível! Desafiador, mas incrível.

Minha primeira família anfitriã, composta por uma rotariana como minha mãe e uma rotaractiana como minha irmã, me acolheu de braços abertos e não hesitou em me explicar absolutamente tudo que acontecia e sobre a cultura.

Eu tive muitas dificuldades relacionadas à infraestrutura no meu processo de adaptação. Não havia água encanada com regularidade, então realmente reaprendi a fazer tudo que a envolvesse. Nós tínhamos água estocada na casa e usávamos baldes para tomar banho, lavar roupas e louça. Inclusive, já cheguei a ficar uma semana inteira sem eletricidade devido às quedas de energia que ocorrem com uma certa frequência dependendo da região. Acredito que essa foi a parte mais difícil.

Outra mudança significativa foram as refeições. O feijão com arroz e carne do meu dia a dia se tornaram Sadza, maveggie (vegetais) e carnes variadas, como o próprio filé, frango, fígado, estômago de boi e joelho de porco. Detalhe: comíamos tudo com as mãos, o garfo e a faca eram dispensados. Tive também a oportunidade de provar comidas nada típicas no Brasil, como larvas Mopane, carne de crocodilo, arroz com pasta de amendoim e matemba, que são minúsculas sardinhas cozidas em um molho de tomate e cebola. Todas as comidas de lá são generosamente temperadas e únicas, a meu ver todos precisam provar pelo menos uma vez na vida.

Todos esses desafios me fizeram uma pessoa mais forte e me trouxeram diversas reflexões voltadas a privilégios e estilos de vida. Experienciando essas maneiras diferentes de se viver podemos crescer e entender melhor o mundo a nossa volta.

O colégio também foi um choque cultural. No Brasil, eu ia para a escola com a camiseta do uniforme, jeans e tênis. No Zimbabué, meu uniforme era muito mais elaborado e formal. Aprendi a andar de salto alto e saia carregando livros “para cima e para baixo”. Me senti em um filme clichê de ensino médio. Todos os dias no colégio eram romantizáveis e eu adorava. Não posso deixar de ressaltar que é o melhor sistema educacional que eu já vi, oferecendo oportunidades para todos os talentos, habilidades e interesses. Só por curiosidade, a taxa de alfabetização no país é de mais de 90%.

A comunidade Chisipite Senior School, onde estudei, me acolheu de braços abertos e me oportunizou muitas atividades extracurriculares e eventos. Durante meu tempo lá, me senti parte do colégio e com certeza isso marcou meu intercambio de maneira muito positiva. 

Fiz parte de diversos clubes durante o ano, como teatro, oratória e Interact, desenvolvendo minha habilidade de comunicação. Também aprendi a tocar um instrumento africano, a Mbira, que me levou a uma boa performance no concurso nacional de artes do país. Por fim, desenvolvi meu inglês nas aulas de literatura avançada e de língua inglesa, aprendendo outros sotaques e adquirindo conhecimento sociocultural.

Durante toda essa adaptação e experiências vividas, as pessoas daqui sempre foram muito acolhedoras. Fiz amigos desde minha primeira semana, muito animados e interessados em conhecer mais sobre o mundo e minha cultura brasileira. Definitivamente todos que conheci deixaram o lugar mais mágico.

O Rotary me oportunizou muitas viagens durante o intercâmbio, que criaram memórias que guardarei em meu coração para sempre. Conheci as Cataratas de Vitória, com suas lindas vistas. Também conheci o Lago Kariba, com uma diversidade de animais gigantesca e lendas folclóricas intrigantes. Outros destinos como Bulawayo, Nyanga, Gweru, Matopos e Cidade do Cabo (África do Sul) também marcaram meu tempo no continente africano.

Criei uma vida inteira em outro país e conheci uma “nova eu” mais forte, comunicativa e corajosa. O intercambio do Rotary me fez líder e protagonista da minha própria vida.

Nada disso veio de graça ou facilmente, foi necessário me desafiar todos os dias e me fazer vulnerável em muitos momentos. Se eu conhecesse um outbound hoje em dia, o aconselharia a fazer o mesmo: não tenha medo de sair da sua zona de conforto, se exponha! Crie conexões e não deixe que o medo do desconhecido ou vergonha te parem.

Minha experiência no Zimbabué me fez lembrar um livro, “O perigo de uma história única”, por Chimamanda Ngozi, que fala sobre os estereótipos. Antes de embarcar para o intercâmbio, as únicas histórias que conseguia sobre o país envolviam pobreza e HIV. Todavia, descobri outras histórias. Histórias sobre pessoas maravilhosas, belezas naturais e culturas riquíssimas. Estereótipos não são, necessariamente, mentiras. Mas são histórias incompletas.

Então, tomemos cuidado com "únicas histórias", elas podem nos privar de experiências únicas.

Por: Lívia Rocha

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